Acordou às cinco e vinte a.m.. Tomou banho e café com creme. Passou cotonete na orelha e no umbigo sem dó. Umbigo peludo junta pó. Como é dia de serviço, vestiu os trajes condizentes. Combinação infernal: roupa social, cidade tropical, calor superior a trinta graus, umidade igual Manaus, até o capeta passaria mal. Como de costume, passou o desodorante roll on sem perfume. Ao invés de sair de casa no horário, ficou mexendo no Facebook. Chegou atrasado no trabalho. Tentou passar disfarçadamente pelo seu chefe, andando de mansinho, sem fazer alarde. Não deu certo, ao invés de bom dia, todos os seus colegas lhe cumprimentaram com um bem humorado e venenoso
Boa tarde! O patrão chamou sua atenção. Ele não liga tanto, sabe que não é irresponsável por chegar tarde de vez em quando. Imprimiu o trabalho da faculdade, viu a escalação do seu time na internet, ligou pro seu vizinho e, pra variar, trabalhou um pouquinho. Foi almoçar, hoje é quarta-feira, dia de feijoada e pagodeira! Ao voltar pra labuta, trabalhou como nunca. Foi à luta! Fez relatórios e depósitos, elaborou planilhas e atendeu às expectativas, fez muitos telefonemas, resolveu problemas, armou táticas, conquistou clientes, odeia matemática, mas para encerrar logo o expediente, calculou aquele imposto... tudo isso porque hoje é dia de jogo! Bateu o cartão, tirou a gravata, dobrou as mangas da camisa e foi pro boteco assistir a partida. Pediu uma cerveja e uma porção de batata frita. Começou! Levantou da cadeira, xingou o juiz, suou de nervoso, torceu o nariz, reclamou do gol anulado, do impedimento não marcado e mesmo assim não teve jeito, seu time foi derrotado. Voltou pra casa arrasado. Perder pro arqui-rival é difícil. Aguentar a zoação dos amigos é terrível, amanhã estarão todos contentes. Por preguiça e ódio, foi dormir sem tomar banho nem escovar os dentes.